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oktober 31, 2004
COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL 1
A história da comunicação pode dividir-se em quatro episódios
PRIMEIRO EPISÓDIO: A COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL
Foi com o homo sapiens, há várias centenas de milhar de
anos, que se forjou o primeiro episódio da história da
comunicação.
História
A história da comunicação é cumulativa: cada nova linguagem,
cada novo medium que Emerec criou. no decurso dos tempos,
sobrejuntou-se aos outros, aumentando assim a sua capacidade
de comunicação. No entanto, a evolução é longa e o acesso a
um novo modo de comunicação é difícil e trabalhoso, pois é
bem verdade que cada um deles transforma progressivamente
Emerec. «Desde que o homem adquiriu a linguagem... ele
próprio determinou as modalidades da sua evolução biológica,
sem disso ter, necessariamente, consciência »1. 0 que era
verdade para a linguagem verbal é verdade para todas as outras
formas de linguagem. Assim, Emerec, homem do séc. XX, é
muitas vezes analfabeto em relação às linguagens audio-visuais
e scripto-visuais. A sua incapacidade de utilizar os media
modernos, que teme e por vezes despreza, entrava a sua
integração na «aldeia planetária» 2.
A história da comunicação pode dividir-se em quatro episódios
que se sobrepõem. Cada episódio é caracterizado pela utiliza-
ção de novas formas de comunicação, que transformam a
sociedade e constituem um novo tipo de comunicação. 0
primeiro episódio é o da exteriorização: Emerec exprime-se pelo
seu corpo, graças aos seus gestos e à sua palavra, sem deixar
de se referenciar ao seu meio ambiente imediato. 0 homem é
portanto, o único medium de comunicação e só a comunicação
interpessoal é possível. 0 segundo episódio é o das linguagens
de transposição, tais como o desenho e o esquema, o ritmo e a
música e sobretudo a escrita fonética, verdadeira revolução! 0
espaço pode ser atravessado, as mensagens são confiadas ao
papiro ou, ao pergaminho; o tempo é vencido e o muro das
cavernas constitui a primeira biblioteca. Tece-se então, uma
verdadeira rede de informação; a era da comunicação de elite
nasce. A amplificação caracteriza o terceiro episódio, que
começa com a implantação da Imprensa e que conhece o seu
apogeu com o satélite. Os media colectivos, os mass média
criam uma nova sociedade baseada na comunicação de massa.
A gravação de sons e de imagens, tornada acessível a todos,
graças à técnica moderna, fornece a Emerec novas linguagens e
novos media, na aurora do 4.º episódio da sua história. Os
media individuais, os seíf-media, oferecem-lhe uma,era nova, a
da comunicação individual.
1 Claude Lévi-Strauss, Anthropologie Structurate, Paris, Plon, 1958, p. 385
2 Segundo a expressão de, Marshali McLuhan.
PRIMEIRO EPISÓDIO: A COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL
Foi com o homo sapiens, há várias centenas de milhar de
anos, que se forjou o primeiro episódio da história da
comunicação. 0 homem é um ser frágil, um dos mais mal
protegidos contra as forças da natureza: calor e frio, sol e
tempestade. Vencido à partida nos seus combates
singulares com os animais; caçador correndo mais
devagar do que as suas presas, ele deveria estar
condenado a desaparecer. Mas não é assim, porque
compensa a sua fraqueza com a sua astúcia e a sua
habilidade manual. 0 homo sapiens tornar-se-á
simultaneamente o homo faber e o homo loquens.
Este homem aprende a exteriorizar as suas
necessidades, as suas ideias, os seus desejos; aprende
a exteriorizar-se. Estabelece um sistema de comunicação
cada vez mais elaborado a partir do seu próprio corpo. Faz
gestos que ganham um sentido cada vez mais preciso,
emite sons que se tornam, pouco a pouco, códigos
significativos. 0 canto e a dança permitem-lhe exprimir
sentimentos, manifestar alegrias, tristezas ou orações.
Diferencia-se dos animais por um sistema de
comunicação progressivo e aberto, que pode transmitir-se
e enriquecer-se, de geração em geração, enquanto que o
dos
A exteriorização
animais, fechado e limitado, se perpetua sem modificação
notável.
No decurso deste episódio, do qual se encontram ainda
vestígios em certas regiões do globo (protegidos e
camuflados pela seiva, preservados pela natureza, mas já
por pouco tempo), a expressão corporal e, verbal
constitui o único modo de comunicação de Emerec. Este
é tributário do seu próprio corpo para se exprimir; as suas
linguagens são-lhe subjectivas, pessoais; os objectos que
o rodeiam não têm ainda, significação arbitrária ou
simbólica, fazem parte da natureza, desse meio no qual
Emerec está perfeitamente integrado e, do qual sabe
interpretar as mensagens, que têm uma tão grande
importância para a sua vida. Os seus sentidos estão
harmoniosamente desenvolvidos, porque ele ainda não
aprendeu a dissociá-los, visto que cada um deles.
desempenha um papel complementar. Para a caça, por
exemplo, o seu olfacto é-lhe muito valioso; o gosto
determina a sua alimentação; o tacto permite-lhe bater-se
e amar; mas, para comunicar, é através dos olhos e da
vista que percebe melhor as mensagens dos outros
homens e as do seu meio ambiente.
0 audiovisual
A vista e o ouvido são os principais sentidos da
comunicação, tal como o gesto e a palavra constituem os
seus principais -modos. A harmonia é grande entre estes
dois sentidos, que permitem a Emerec perceber o seu
meio na sua dimensão real de espaço-tempo. 0 barulho
não se dissocia do acontecimento, o trovão completa o
relâmpago, a agitação revela, a queda. Tudo o que é visível
é percepcionado no espaço, tudo o que é acústico é
percepcionado no tempo. Por conseguinte, o meio
ambiente é principalmente audiovisual e espacio-temporal,
visto que ele transmite sem parar, informações perceptíveis
simultaneamente pelos olhos e pelos ouvidos. Assim
foram as primeiras linguagens de Emerec.
0 gesto, isto é, toda a forma de expressão corporal é,
desde a origem, acompanhado de sons, como é o caso da
dança e do canto. Uma parte da significação desta
linguagem fundamental é intuitiva para o homem, tal como
acontece com a linguagem animal que se transmite de
geração em geração sem evoluir. Será apenas a pouco e
pouco que o homem primitivo irá transformar o gesto,
codificando-o, dando-lhe significações, que se transmitirão
como uma primeira herança cultural e evoluirão de
geração em geração.
Os sons que acompanhavam o gesto articulam-se pouco a
pouco e formam-se palavras. Esta linguagem verbal,
baseada na utilização e na combinação de palavras, faz de
Emerec um comunicador. A palavra deixa de conhecer o
limite de gestos que apenas completava e que agora já
ultrapassa. As combinações de sons que ela permite,
tornam possível a expressão daquilo que até então era
inexprimível. Comunicar já não é uma função instintiva,
como a de caçar e a de comer, mas uma função cultural.
A palavra ainda não é uma linguagem puramente acústica;
nessa época ela é audiovisual: o gesto faz parte essencial
dela e não é uma ilustração supérflua; a comunicação não.
é puramente linguística, é integrada. A primeira linguagem
do homem é pois audiovisual, tanto ao nível da expressão -
gesto e palavra
como ao da percepção - visão e audição.
0 homem-medium
Os media são os suportes materiais que tornam possível a
comunicação. 0 suporte mais fundamental, o único que
existiu na origem, é o próprio homem. 0 homem que
gesticula e que fala é o primeiro medium audiovisual. Os
media são os intermediários físicos que permitem a
comunicação à distância, quer seja à distância no espaço,
quer seja à distância no tempo. Ora, Emerec ainda não
aprendeu a transpôr e a materializar as suas mensagens;
por isso mesmo, tem que as confiar a um outro homem.
No espaço, o alcance da comunicação de Emerec é
limitado à acuidade auditiva e visual do seu interlocutor.
Por isso, para comunicar à distância no espaço, ele tem
que se deslocar. Os seus meios de comunicação
confundem-se, então, com os seus meios de transporte, a
menos que ele confie a sua mensagem a um outro
homem, encarregando-o de a transmitir. Este é um
mensageiro que reproduzirá pelas suas próprias palavras,
pelos seus próprios gestos, a mensagem que lhe foi
confiada. 0 mensageiro é um verdadeiro medium que
difunde à distância a mensagem de outro, mas, não sem a
alterar, não sem a impregnar da sua própria personalidade.
No tempo, a duração da comunicação de Emerec é
limitada ao instante fugaz. Evidentemente, ele pode repetir
a sua mensagem, mas então a sua comunicação é
limitada pela duração da sua vida, a menos que ele a
confie a qualquer outro que se encarregará de a perpetuar.
Há mesmo verdadeiros homens-media que se tornam
especialistas desta transmissão oral, desempenhando
assim o papel de memória do tempo, que é hoje
preenchida pelas enciclopédias e pelos arquivos. Estes
contadores, os aedos do mundo grego (conservadores das
narrações que darão a filada e a Odisseia), os bardos das
tribos, Celtas (ver Astérix), os trovadores da Idade Média,
do Sul e do Norte da França, os feiticeiros de África e os
velhos contadores canadianos, nos serões de antigamente,
são media dê comunicação. Contaram a história da
humanidade e simultaneamente, criaram a sua mitologia.
Texto transcrito do livro "A era de EMEREC " de Jean Cloutier, Ministério da Educação e Investigação Científica - Instituto de tecnologia Educativa, 1975.
Publicado por james stewart às oktober 31, 2004 10:15 EM