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oktober 31, 2004
COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL 7
A procura permanente de reconhecimento é, por um lado, um mecanismo inconsciente do estabelecimento da comunicação; por outro, um processo essencial na construção da identidade pessoal.
A Eficácia da Comunicação
Sartre disse: “ Il suffit qu’autrui me regarde, pour que je sois ce que je suis.”. Frase banal ? Parece. No entanto ela encerra o sentido profundo da complexidade que envolve o processo comunicacional na sua dimensão interpessoal e social.
A procura permanente de reconhecimento é, por um lado, um mecanismo inconsciente do estabelecimento da comunicação; por outro, um processo essencial na construção da identidade pessoal. Na realidade a identidade individual depende profundamente e sempre da relação que estabelecemos no nosso quotidiano com os outros, e do reflexo desta, isto é, da imagem que eles nos dão de nós próprios. Esta imagem, real ou imaginária, antecipada ou apreendida, funciona como um retrato de nós próprios que constantemente olhamos para verificar se continuamos “parecidos”. Frente a um espelho olhamos a imagem reflectida, tentamos compreende – la e reconhecer nela o mesmo “retrato que os outros” fizeram de nós. Quando existe “coincidência de traços” naquilo a que poderemos chamar o “desenho de nós”, num processo imaginário onde ambos fossem passados em papel vegetal e sobrepostos, há equilíbrio, sensação de conforto e bem estar. Há aceitação de nós e dos outros, porque aquilo que julgamos ser coincide com aquilo que julgamos que os outros pensam que somos. Porém, nem sempre conseguimos uma justaposição dos “desenhos”. É neste contexto a que chamo dijunção esquemática da identidade individual que surgem as disfunções comportamentais. A identidade individual e a identidade social são recorrentes, interagem numa relação “circular” de causa/efeito. A identidade social não nasce connosco. Vai sendo construida no espaço e no tempo da vida social, face aos confrontos de indivíduos, grupos e sociedades contra outros indivíduos, grupos e sociedades, gerando práticas contínuas de comunicação partilha, comunhão e participação que permitem superar os conflitos.É neste contexto de construção contínua da identidade social que emerge o processo comunicacional solidamente alicerçado em relações interaccionais, que não poderão nunca ser reduzidas à transmissão de uma mensagem. Comunicação e relação são dois conceitos intrínsecamente ligados e indissociáveis. Não existe qualquer tipo de relação – interpessoal, social, grupal ou de massas – sem comunicação. Por outro lado, como afirma Edmond Marc, “ a relação face-a-face obedece a toda uma gramática de regras e procedimentos sem os quais a comunicação não é possível.”.
O debate sobre o processo comunicacional corre, muitas vezes, o risco de se cristalizar em torno de três dos polos da comunicação: o emissor, o receptor e a mensagem. Com efeito, demonstrada a importância da retroacção (feed-back) por Gregory Bateson e a Escola de Palo Alto, a aparentemente evidente imprescindibilidade do canal e a necessidade absoluta de existência do código ( contributo inquestionável da Linguística), é grande a tentação de centrar a investigação nos actores do processo comunicacional, enquanto actores. É exactamente no desempenho destes diferentes papéis que situo a questão sobre a qual me tenho debruçado : não há comunicação sem eficácia – qualquer relação só é comunicacional quando é eficaz, e só é eficaz quando produz resultados. Comunicar implica interagir do início ao fim de um processo comunicacional independentemente da longevidade do processo em si mesmo.
O processo comunicacional estabelece – se a partir de uma intencionalidade de estabelecimento de uma relação entre duas ou mais pessoas. Quando a intenção (mecanismo intrapsíquico de manifestação de uma vontade) se transforma em acção pelo esforço de uma vontade explícita, falamos de génese de um proceso comunicacional. O emissor transforma em acto o que antes era potencial. Objectiva e materializa a sua intencionalidade comunicacional que, no entanto, só é plenamente conseguida quando obtém do receptor uma “resposta” -feed-back- em tempo útil, isto é, susceptível de provocar uma reacção dimensionada para a mensagem que “emitiu”. Quando a retroacção ocorre fora do tempo expectável pelo emissor ( agora assumindo o papel de receptor), não há eficácia porque deixou de haver capacidade de produção de comportamentos, sensações ou emoções. Três situações podem ocorrer : a inexistência de retroacção geradora de consequências, de produção de resultados; retroacção fora do tempo útil – o emissor primeiro do processo comunicacional (agora receptor) manifesta indiferença - nem sequer “ouve” a resposta quando esta surge, não porque não seja adequada mas porque surge desajustada no tempo - e, consequentemente, não reage porque não assume de novo o papel de emissor dando continuidade ao processo comunicacional ; retroacção inadequada à mensagem enviada, suscitando uma reacção de negação – o emissor/receptor obtem uma resposta inadequada no conteúdo. Falamos de um processo comunicacional que teve um início mas não um fim “útil”. A resposta perdeu – se no tempo imaginário e das expectativas do emissor ou na inadequação do seu conteúdo pelo que perdeu a eficácia. Quando não há eficácia, apesar de haver comunicação no sentido académico, esta não existe com significado social. Falamos então em comunicação intencional. Há intenção de estabelecer uma relação interpessoal da qual deverá resultar uma dinâmica comportamental – objectiva - mas porque esta não ocorre, não há eficácia. Ficamos pelo plano do imaginário, da abstracção, do retórico. Sendo assim, só podemos falar de comunicação interpessoal quando existe eficácia, isto é, quando se obtém uma interactividade reaccional. Falamos em comunicação a nível social quando existe, igualmente reacção – positiva ou negativa – mas, em rede.
Lisboa, 14 de Dezembro de 2001
Margarida Ayres Martins
Publicado por james stewart às oktober 31, 2004 11:40 EM