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november 29, 2004

COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL 11

A Importância da Interdisciplinareidade na História da Ciência: o Caso da Cibernética e da Escola de Palo Alto

A Importância da Interdisciplinareidade na História da Ciência: o Caso da Cibernética e da Escola de Palo Alto

Clara Costa Oliveira
Profesora de la Universidade do Minho-Braga (Portugal)

Interdisciplinareidade e Ciência Contemporânea
O momento de política internacional em que nos encontramos aviva-nos a consciência para a interdependência de toda a humanidade no que respeita a sua sobrevivência enquanto espécie. A história de cooperação, negociação e comunicação constantes na construção de comunidades na linhagem da espécie humana tem sido frequentemente apontada como um dos factores explicativos da supremacia do Homo Sapiens Sapiens face às outras espécies no nosso planeta (Maturana,1994).
A evolução da ciência, como produto da cultura greco-cristã, encontra-se plena de exemplos desta situação e neste texto iremos debruçarmo-nos sobre um desses momentos de cooperação entre áreas disciplinares aparentemente afastadas epistemologicamente: a Cibernética e a Escola de Palo Alto (no âmbito da Psicologia e da Psiquiatria).
Gostaríamos, no entanto, de anteriormente reflectir sobre a dimensão interdisciplinar na ciência contemporânea. As disciplinas que possuem o estatuto interdisciplinar por excelência são a Matemática e a Filosofia. A Matemática constitui a história das ciências desde o seu surgimento na modernidade, e a Filosofia tem vindo a (re)ocupar um papel cada vez mais assinalável na ciência contemporânea, em parte devido às consequências que os limites encontrados na Matemática provocaram noutras áreas científicas.


Temos assim que as ciências ditas da natureza avançam quotidianamente numa especialização crescente depois de se terem encontrado com, e superado o efeito desse encontro, questões de ordem filosófica (sobretudo de tipo epistemológico, hermenêutico e ético). As ciências ditas humanas encontram-se, no nosso entender, numa situação diferente, dado estarem a evoluir a ritmos muito variados, algumas em clara crise paradigmática e outras ainda obcecadas com questões metodológicas e observacionais que encontrávamos nos quadros teóricos das ciências da natureza (antes de Einstein, Heinsenberg e Niels-Bohr na Física, por exemplo) e da Matemática (antes de Riemann, Mandelbrot e Gödel) dos sec.s XIX.-XX.
Esta situação complexa em que se encontra a ciência contemporânea coloca-nos numa situação difícil dado que a especialização em algumas áreas parece impossibilitar, por um lado, a comunicação com outras áreas; a confusão conceptual e metodológica em algumas ciências parece, por outro lado, inviabilizar a possibilidade de um diálogo rigoroso.
Estas dificuldades não nos podem contudo imobilizar e o diálogo com uma área científica é sempre possível estudando a história dessa ciência e os fundamentos epistemológicos, implícitos e explícitos, das teorias e modelos dessa área. Este estudo prévio possibilita-nos contextualizar as dificuldades, do nosso ponto de vista, que podemos encontrar na ciência estudada e assim poder compreender a especificidade dos conceitos nela utilizados e avaliar cautelosamente a sua utilização noutras áreas científicas.


A Escola de Palo Alto constitui hoje um dos núcleos de investigação mais prestigiados no âmbito psicoterapêutico e psiquiátrico. O seu fundador era um apaixonado pelo saber científico e, numa perspectiva ecológica da mente (mind), socorreu-se de conceitos cibernéticos para compreender os processos da psiquê humana, no pressuposto da similitude formal que acreditava existir no funcionamento de todos os seres vivos (Bateson, 1972).
A primeira ressalva que aqui deve ser feita é que se abordarão as conceptualizações dos pensadores de Palo Alto apenas até à fase desta Escola em que o livro Pragmatics of Human Communication era tido como a bíblia (de biblos) desta corrente psicoterapêutica. Esta foi, de facto, a época em que os conceitos do âmbito cibernético foram mais explorados na sua aplicação à dimensão psicoterapêutica e psiquiátrica, até porque é a fase de surgimento e desenvolvimento da Cibernética, que foi sendo entretanto substituída quer pelas ditas ciências cognitivas, quer pela engenharia da computação.
Muitas críticas se têm vindo a fazer às concepções e procedimentos psicoterapêuticos da Escola de Palo Alto; algumas das críticas mais negativas surgem aliás por parte de profissionais formados por aquela instituição (Freedman, Combs, 1996).
Muitas destas críticas desfavoráveis reportam-se a literalizações que os responsáveis de Palo Alto foram fazendo das metáforas introduzidas pelos fundadores desta corrente, e em especial por Gregory Bateson. Pensamos pois que um retorno às significações originais de alguns dos conceitos que caracterizaram aquela Escola nos poderá ajudar a repor alguma verdade sobre o assunto. Mas a actualização da significação de alguns desses vocábulos pode também ser útil para as utilizarmos, ou desenvolvermos, como metáforas noutros domínios da Psicologia, e até noutras áreas do saber humano.

2. BATESON: DA CIBERNÉTICA A PALO ALTO
Gregory Bateson contactou pela primeira vez com as perspectivas cibernéticas em 1942, nas Conferências de Macy. Ele andava na altura obcecado com a Teoria de Tipos Lógicos de Bertrand Russell, e a sua presença em Macy foi um momento especialmente importante para a construção posterior das suas concepções de um holismo epistemológico rigoroso e extraordinariamente formal. Gregory tornou-se amigo pessoal de Norbert Wiener e de Heinz von Foerster e também ele influenciou bastante estes dois génios contemporâneos.
A Cibernética surgiu como disciplina que pretendia estudar os processos de auto-regulação, de controle (Wiener, s/d). Wiener, von Foerster e Rosenbleuth, entre outros, pretendiam estudar esta questão em qualquer tipo de sistema em que ele ocorresse. É neste contexto que fundaram o Biological Computer Laboratory, onde identificaram os seres vivos como sendo sistemas com capacidade homeostática, auto-reguladora. Construirem artefactos maquínicos que conseguissem actuar deste modo era um dos principais objectivos desta instituição. Eles não obtiveram grandes resultados e, por razões várias, a Cibernética evoluiu para o cognitivismo, passando a centrar-se nas questões da Inteligência Artificial.


Gregory Bateson era um homem vindo da biologia e da antropologia; a dimensão electrónica da Cibernética escapava-se-lhe. Mas a compreensão formal dos fenómenos auto-reguladores era algo por que se interessava a sua mente profundamente transdisciplinar.
O financiamento do Mental Institute Research (a partir do qual se constituiria aquilo a que hoje chamamos "Escola de Palo Alto") por parte do Ministério do Exército dos E.U.A. prende-se exactamente com a investigação desta dimensão. O projecto inicial desta Escola era basicamente o projecto do Biological Computer Laboratory, associado à questão antiga de Russell, ou seja: o que se pretendia era compreender os fenómenos de auto-regulação em qualquer forma de vida. Daí o trabalho de pesquisa sobre parâmetros formais na comunicação entre animais, por exemplo. A actuação de psicoterapeutas e psiquiatras no projecto de Palo Alto deveria ser entendida dentro de esta perspectiva mais ampla, e quando o grupo se dirigiu explicitamente para outras finalidades, Bateson saiu da equipa e foi estudar o comportamento de polvos.

3. CONCEITOS BASE DE PALO ALTO
3.1. A FORMA é talvez a dimensão mais importante para a compreensão do projecto inicial de Palo Alto, detectando-se neste caso também a influência clara da corrente da Gestält. A dimensão formal dos fenómenos possibilita-nos a detecção de regularidades abstractas entre todos os seres vivos; a essas regularidades (a simetria, por exemplo) Bateson apelidou-as "padrão" e ele acreditava existirem também "metapadrões", isto é, similitudes abstractas entre o mundo físico e o orgânico. Desta obsessão pela dimensão formal emergiu a sua perspectiva da mente como uma dinâmica processual auto-reguladora, logo, cibernética. A mente humana (e não somente a sua racionalidade) possuem esta dimensão auto-reguladora, mas qualquer máquina (um cobertor eléctrico, por exemplo) com sistema de termostato pode ser considerada uma sistema mental.
"In the last twenty-five years extraordinary advances have been made in our knowledge of what sort of thing the environment is, what sort of thing an organism is, and, specially, what sort of thing a mind is. These advances come out of cybernetics, systems theory, information theory, and related sciences. […] We can assert that any ongoing ensemble of events and objects which has the appropriate complexity of causal circuits and the appropriate energy relations will surely show mental characteristics. It will compare, that is, be responsive to difference (in addition to being affected by the ordinary physical 'cause' such as impact or force). It will 'process information' and will inevitably be self-corrective either toward homeostatic optima or toward the maximization of certain variables". (Bateson, G., 1972:315)


3.2. DIGITAL/ANALÓGICO são conceitos utilizados para significar a dimensão verbal/escrita (digital) e a não-verbal e paralinguística (analógica). São retirados do domínio cibernético, em que os computadores digitais permitiam um processamento informacional bastante rigoroso, mas que operavam com variáveis reduzidas. De igual modo, as linguagens verbais/escritas possuem uma sintaxe bastante precisa que assegura rigor comunicacional mas abrangem um leque reduzido de formas de comunicação humana, já que esse mesmo rigor sintáctico inibe a criatividade dentro deste tipo de linguagens.
A linguagem analógica cruza muitas mais variáveis ao nível comunicativo, mas peca por falta de precisão semântica, ou, pelo menos, essa imprecisão existe face ao que dela conseguimos saber. A ligação à Cibernética decorre de os computadores de tipo analógico que então se conheciam serem altamente imprecisos no tratamento informacional, ainda que conseguissem tratar maior número de variáveis, comparativamente com os de tipo digital. (Bateson, G., 1972; Oliveira, 1996; 1999a).

3.3. FEEDBACK/RUNAWAY são conceitos que ainda hoje a maior parte das pessoas liga à Cibernética, e à computação em geral. Eles foram contudo transferidos para o domínio psiquiátrico via Escola de Palo Alto. O primeiro refere-se à capacidade de retroacção que os sistemas computacionais possuem para tratamento dos resultados produzidos (verifica-se pois uma causalidade circular). Quando o feedback é positivo (não havendo auto-correcção), os erros informacionais repetem-se sucessivamente, ampliando-se de tal modo que podem levar à destruição do programa informático em questão: runaway.
Bateson pretendeu aplicar estes conceitos para estudar as questões de auto-regulação em grupos sociais alargados, mas os outros investigadores de Palo Alto confinaram-se a grupos pequenos, como sendo o caso das famílias. O recurso a estes conceitos no domínio psiquiátrico dá-se sobretudo no domínio explicativo dos resultados obtidos, ou não, pelos clientes face à intervenção do especialista que podendo desencadear um mecanismo retroactivo positivo (auto-corrector), pode também contudo estimular um processo de runaway (e que é também um processo de tentativa de auto-regulação).

3.4. A ECOLOGIA proposta por Gregory Bateson apoia-se numa visão sistémica da mente. Mas notemos desde já: em Bateson não só o todo é maior que a soma das partes, como também os sistemas emergem uns dos outros com graus de complexidade acrescida; cada um dos sistemas mentais é um metacontexto do nível anterior.
A influência da visão sistémica da Cibernética é aqui francamente mediada pela lógica russeliana. A ecologia batesoniana não se refere tanto à preservação de sistemas vivos existentes, mas à compreensão da articulação sistémica de padrões e metapadrões de auto-regulação. G. Bateson acreditava que uma compreensão destes fenómenos nos levaria a agir de maneira adequada de modo a garantir a auto-regulação da qual dependemos, quer do ponto de vista filogenético, quer do ponto de vista ontogenético.
Daí que a sua ecologia seja uma ecologia da mente e não propriamente do ambiente; devemos também lembrar-nos que para ele não existia a divisão sujeito/meio, mas antes unidades compostas sujeitos-nichos, que são os níveis mais básicos da unidade-complexidade sistémica do universo.
É surpreendente como ele parece estar cada vez mais certo nas suas intuições conforme a ciência avança, já que neste decénio surgiu a concepção explicativa da origem do universo auto-constructor. Esta sua perspectiva ecológica da mente foi aliás um dos suportes (juntamente com a termodinâmica de Prigogine) para as conceptualizações da teoria do caos e da teoria da complexidade pelo ruído, entre outras.

4. REFLEXÕES FINAIS
A primeira lição a tirar do acima exposto parece-nos ser como uma ciência pode influenciar e despoletar o enriquecimento de outras áreas do saber, sem que com isso fique mais pobre. Mas a ciência a que a outra vai buscar conceitos também dela não fica necessariamente dependente, pois a aplicação contextualizada desses conceitos leva a uma criatividade conceptual que se distancia e autonomiza face à denotação dos conceitos na primeira ciência em questão.
A potencialidade destes conceitos noutras áreas está ainda longe, quanto a nós, de ser rentabilizada. Assim, e a título sugestivo, apontamos algumas possíveis utilizações interdisciplinares destes conceitos.
A perspectiva formal de Bateson poderia ajudar-nos a constituir corpos de saberes conceptuais mais rigorosos em áreas do saber que se encontram em crise paradigmática, e nela poderia também apoiar-se um trabalho de continuidade formal entre teorias de várias áreas (como já vem acontecendo, por exemplo, com teorias vinculadas ao Movimento da Auto-Organização: Oliveira, 1999a).
O treino da observação de tipo analógico poderia fazer parte integrante, e obrigatória, da formação de qualquer profissional no âmbito das ciências humanas (e na formação de profissionais de saúde) pois nesta forma comunicativa de raiz biológica assentam as linguagens articuladas de tipo digital (Oliveira, 1999b).
A exploração de conceitos como feedback/runaway poderia ser extraordinariamente útil para a compreensão de fenómenos de complexidade pelo ruído em áreas como a aprendizagem biológica, a pedagogia, a psicologia do desenvolvimento e a psicologia da educação.

BIBLIOGRAFIA:

Bateson, G. (1979) Mind and Nature - A Necessary Unity. Nova Iorque. Bantam Books.
Bateson, G., Ruesch, J. (1988). Communication et Société. Paris. Seuil.
Bateson, Gregory (1972). Steps to an Ecology of Mind. Nova Iorque. Ballantine Books.
Bateson, Mary-Catherine (1994). With a Daughter's Eye - a Memoir of Margaret Mead and Gregory Bateson. Nova Iorque. Harper Collins Publishers.
Freedman, J., Combs, G. (1996). Narrative Therapy - The Social Construction of Preferred Realities Nova Iorque. W. W. Norton Company.
Oliveira, Clara Costa (1996). "Bateson e Bateson: da Aprendizagem Biológica à Aprendizagem ao Longo da Vida". In Actas do IIº Congresso Galaico-Português de Psicopedagogia. Braga. Univ. do Minho. Vol. I.
Oliveira, Clara Costa (1999a). A Educação como Processo Auto-organizativo. Fundamentos Teóricos para uma Educação Permanente e Comunitária. Lisboa. Instituto Piaget.
Oliveira, Clara Costa (1999b). "Linguagens da Comunicação Humana". In Sonhar. Comunicar. Repensar a Diferença. V. 2-3. [Setembro-Abril] 1998-1999.
Picard, D., Marc, E. (1984), L'Ecole de Palo Alto. Paris Retz.
Watzlawick, P., Beavin, J., Jackson, D. (1962). Pragmatics of Human Communication -A Study of Interactional Patterns, Pathologies, and Paradoxes. Nova Iorque. W.W. Norton Company, Inc..
Wiener, Norbert (s/d). Cybernétique et Société. Paris. Deux Rives.
Maturana, H. e Verden-Zoller, Gerda (1994). Amor y juego - Fundamentos Olvidados de lo Humano - desde el Patriarcado a la Democracia. Santiago do Chile. Editorial Instituto de la Terapia Cognitiva.



Publicado por james stewart às november 29, 2004 02:44 EM