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november 23, 2004
PSICOLOGIA SOCIAL DO TURISMO 4
O turismo é um fenômeno social, que consiste no deslocamento voluntário e temporário de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente por motivos de recreação, descanso, cultura e saúde, saem do seu local de residência habitual para outro, no qual não exercem nenhuma atividade lucrativa nem remunerada, gerando múltiplas inter-relações de importância social, econômica e cultural.
A Produção do saber Turístico: Marutschka Martini Moesch , Editora Contexto, 2002
22/11/2002 - Editora Contexto
No turismo, o epicentro do fenômeno é de caráter humano, pois são os homens que se deslocam, e não as mercadorias, o que impõe complexidades ao esforço de uma argumentação sistemática dessa realidade.
Este livro aborda a questão do desenvolvimento do Turismo com base nos avanços do capitalismo. A partir da década de 60, o Turismo vira um fenômeno econômico e passa a ocupar lugar de destaque no mundo financeiro internacional. “A produção do saber turístico” é o primeiro livro que organiza o conhecimento turístico, fornecendo bases sólidas para um estudo aprofundado desta área do saber. É leitura obrigatória para estudantes e professores interessados no tema.
Por uma epistemologia do turismo
O turismo nasceu e se desenvolveu com o capitalismo. A cada avanço capitalista, há um avanço do turismo. A partir de 1960, o turismo explodiu como atividade de lazer, envolvendo milhões de pessoas e transformando-se em fenômeno econômico, com lugar garantido no mundo financeiro internacional. Desde 1995, o fluxo turístico cresce a uma taxa anual média de 4,3%, enquanto a expansão máxima da riqueza mundial tem sido de 3%, aproximadamente. Em 1997, o setor empregava 250 milhões de pessoas, uma entre cada dez pessoas da população mundial economicamente ativa, conforme a Organização Mundial do Turismo - OMT (1998).
O fenômeno determinado por esta expansão tem gerado análises, estudos e pesquisas, tanto no âmbito dos órgãos oficiais, como no dos setores produtivos e de algumas academias, deixando de ser uma preocupação teórica secundária. Converteu-se "em um direito do homem moderno", segundo Lonati (1986), secretário-geral da OMT, passando de um status de objeto percebido a objeto de conhecimento.
O turismo é uma combinação complexa de inter-relacionamentos entre produção e serviços, em cuja composição integram-se uma prática social com base cultural, com herança histórica, a um meio ambiente diverso, cartografia natural, relações sociais de hospitalidade, troca de informações interculturais. O somatório desta dinâmica sociocultural gera um fenômeno, recheado de objetividade/subjetividade, consumido por milhões de pessoas, como síntese: o produto turístico.
O país receptor entende o turismo como uma "indústria", cujos produtos serão consumidos no próprio local de produção, mas também gerando exportações invisíveis. Os benefícios originários deste fenômeno podem ser verificados na vida econômica, política, cultural e social da comunidade. Para uma grande parte dos autores da área de turismo, este é concebido como um produto, pois satisfaz necessidades humanas. A partir dessa conceituação, hoje genericamente aceita, podem ser interpretados, da mesma maneira, bens e consumo ou até mesmo os sujeitos, serviços, localidades, instituições, idéias ou impactos, sempre que disponíveis para satisfazer às necessidades dos indivíduos ou grupos que se deslocam de seu local de origem.
Analisar as diversas interpretações deste fenômeno no transcorrer do tempo permite a formulação de problemas que visam desvelar a episteme subjacente.
O primeiro registro da palavra turismo remonta-se a 1800 e está no Pequeno Dicionário de Inglês Oxford: "Turismo: A teoria e prática de viajar, deslocar-se por prazer. Uso, depredação". A raiz tour aparece documentada em 1760, mas também na Inglaterra. A etimologia da palavra permite indicar sua procedência latina tornus (torno) como substantivo, e tornare (redondear, tornear, girar) como verbo. A idéia de giro, de viagem circular, de volta ao ponto de partida, se deduz, claramente, de raiz comum, que origina tornus e tornare. Parece que o turn britânico, de 1746 - to take a turn - cedeu lugar, em 1760, ao tour que usamos até hoje, de influência francesa. Sua primeira utilização como título em uma obra sobre viagens foi também em Londres, em 1810, no livro de Henry Swinburne, Picturesque Tour Spain. Em seus princípios históricos, para Fuster, o conceito simples e vulgar da palavra turismo seria sinônimo de "viagem por prazer".
Em 1911, o economista austríaco Hermann Von Schattenhofen escrevia: "Turismo é o conceito que compreende todos os processos, especialmente os econômicos, que se manifestam na chegada, permanência e na saída do turista de um determinado município, país ou estado". Em 1929, surgiram as conceituações da chamada "escola berlinesa", a partir dos esforços de Benscheidt, Glücksmann e outros. O turismo passa a ser entendido como "um vencimento do espaço por pessoas que vão para um local no qual não têm residência fixa". Outros autores contribuem com definições semelhantes, abrangendo aspectos de consumo de luxo, motivações pessoais, mas sem deixar de enfatizar o deslocamento de pessoas: Morgenroth afirma: "Tráfego de pessoas que se afastam temporariamente do seu lugar fixo de residência, para se deter em outro local, com o objetivo de satisfazer suas necessidades vitais e de cultura ou para realizar desejos de diversas índoles, unicamente como consumidores de bens econômicos e culturais".
Além destas conceituações, foram elaboradas outras pela chamada "escola polonesa". No conceito de Lesczyck "o movimento turístico é aquele no qual participam os que durante um certo tempo residem num certo lugar, como estrangeiros ou forasteiros e sem caráter lucrativo, oficial (de serviço) ou militar". Mais tarde, outros estudos, fora da escola berlinesa, deram origem a novas conceituações, algumas pobres, outras com maior visão, mas todas enfatizando o volume turístico.
Norwal, em 1936, acrescenta um novo elemento ao debate, o sujeito que viaja: "Turista é a pessoa que entra num país estrangeiro sem a intenção de fixar residência nele, ou de nele trabalhar regularmente, o que gasta naquele país de residência temporária, o dinheiro que ganhou em outro lugar". A Sociedade das Nações, em 1937, determina um critério estatístico para definir a categoria de turista: "Toda a pessoa que viaja durante 24 horas ou mais por qualquer outro país distinto a sua residência habitual". Ressalta-se, nessas conceituações, a importância dada aos efeitos econômicos nos núcleos receptores, e não o interesse teórico ou apreensão metodológica de conhecimento do fenômeno, sendo um objeto de conhecimento.
Para Fuster, com a proliferação de monografias sobre a temática, depois da Segunda Guerra Mundial, houve uma qualificação nas novas conceituações, como as dos suíços Hunziker e Krapf que, em 1942, pregavam: "Turismo é o conjunto das relações e dos fenômenos produzidos pelo deslocamento e permanência de pessoas fora do seu local de domicílio, sempre que ditos deslocamentos e permanência não estejam motivados por um atividade lucrativa".
Autores mais contemporâneos, influenciados pelo crescimento vertiginoso do turismo e suas manifestações multifacetadas, ampliam as conceituações. Dentre eles, Fuster, para quem o:
Turismo é de um lado, conjunto de turistas; do outro, os fenômenos e as relações que esta massa produz em conseqüência de suas viagens. Turismo é todo o equipamento receptivo de hotéis, agências de viagem, transportes, espetáculos, guias-interprétes que o núcleo deve habilitar, para atender às correntes (...). Turismo é o conjunto das organizações privadas ou públicas que surgem, para fomentar a infra-estrutura e a expansão do núcleo, as campanhas de propaganda (...). Também são os efeitos negativos ou positivos que se produzem nas populações receptoras.
A conceituação de turismo aceita internacionalmente é a da Organização Mundial do Turismo: "Soma de relações e de serviços resultantes de um câmbio deresidência temporário e voluntário motivado por razões alheias a negócios ou profissionais". É uma conceituação simplificada, enfatizando o volume aparente de um fenômeno de dimensões qualitativas e quantitativas complexas. Embora alguns círculos, principalmente leigos, vejam o turismo apenas como "a indústria de viagens de prazer", trata-se de um fenômeno que avança para além das questões comerciais e econômicas.
Para Bukart e Medlik, o turismo é um amálgama de fenômenos e relações, advindos do movimento de pessoas e sua permanência em diferentes destinos. Há um elemento dinâmico, a viagem, e um elemento estático, a estada. A viagem e a estada acontecem fora do lugar de residência, e nelas as pessoas desenvolvem atividades diferentes de seu cotidiano. É um movimento particular, por ser temporário: o turista sempre pensa em retornar para casa em pouco tempo. A visita aos lugares/destinos não visam lucro, portanto as motivações obedeceriam a razões espirituais ou vitais, mais próprias e íntimas.
A escola portuguesa, sustentada pelas obras de Baptista, define o turismo pelo conceito de turista, no qual turista é um indivíduo em viagem, cuja decisão para o deslocamento foi tomada com base em percepções, interpretações, motivações, restrições e incentivos, representando manifestações, atitudes e atividades relacionadas a fatores psicológicos, educacionais, culturais, técnicos, econômicos, sociais e políticos. A viagem envolveria uma multiplicidade de agentes institucionais e empresariais, da partida ao retorno, situação que, por isso, também se estende ao próprio turismo como setor de atividade que, sendo fundamentalmente econômico, tem iguais significados, implicações, relações e incidências sociais, culturais e ambientais.
Uma conceituação mais complexa é a de De La Torre, quando afirma:
O turismo é um fenômeno social, que consiste no deslocamento voluntário e temporário de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente por motivos de recreação, descanso, cultura e saúde, saem do seu local de residência habitual para outro, no qual não exercem nenhuma atividade lucrativa nem remunerada, gerando múltiplas inter-relações de importância social, econômica e cultural.
O avanço do fenômeno turístico permite aos economistas vislumbrarem, nele, o crescimento das taxas de desenvolvimento das diferentes regiões. Esse contexto, histórico, corrobora com a vertente pragmática, na qual o turismo é tomado como atividade de forte apelo econômico. Quanto mais crescesse, mais geraria novas necessidades de hotéis, estradas, comunicações, restaurantes, artesanatos, entretenimento, numa espiral de bens e serviços, os quais, para servir os turistas, empregariam mais mão-de-obra. Portanto, o fenômeno configurar-se-ia como uma "indústria sem chaminés", segundo alguns técnicos e planejadores públicos. A posição economicista significa um reducionismo em seu tratamento epistemológico. Se o turismo for entendido como mera atividade econômica, sua análise passa a vir recheada de índices estatísticos, projeções de crescimento, planos e projetos em nível macro e micro, estudos de demandas, viabilidade econômica de investimento, custo-benefício entre produção e consumo, limitando-se a uma análise aparente do fenômeno.
Para Sessa, representante da escola italiana, deve-se dar um tratamento científico ao fenômeno, pois este representaria uma nova ciência, mesmo que seu objeto deste conhecimento pertença, indubitavelmente, às ciências sociais. Interessa à economia, à sociologia por seus aspectos sociais, à geografia por seu conteúdo especial, à psicologia pelo comportamento individual, social e de grupo do turista e pela investigação motivacional que lhe é conexa. Na realidade, no turismo, o epicentro do fenômeno é de caráter humano, pois são os homens que se deslocam, e não as mercadorias, o que impõe complexidades ao esforço de uma argumentação sistemática dessa realidade. Basta que se pense nas séries importantes de inter-relações humanas que derivam do comportamento consumidor-turista com os grupos de habitantes do local visitado, enfim, todo o complicado processo de identificação do turista com o grupo ideal ou efetivo que determina a escolha da localidade de destino.
A produção do saber turístico de modo geral, e de modo específico no Brasil, tem se constituído num conjunto de iniciativas, prioritariamente, do setor privado/empresarial e menos da academia, sejam universidades e/ou faculdades, públicas ou privadas. O saber turístico assim produzido é reduzido às informações e sistemáticas sobre o seu setor produtivo. Esse contexto permite delinear a hipótese de que o saber turístico é um fazer-saber, não existindo saber além daquele que resulta de um fazer-saber.
Conforme estudo realizado por Rejowski (1996), a pequena produção acadêmica, no Brasil, exemplifica esta assertiva: em 17 anos, apenas 55 dissertações e teses foram elaboradas, tendo o turismo como objeto. Um número insufuciente para constituir uma linha de pesquisa substancial, na sustentação de uma teoria do turismo, ou seja, no desvelamento de sua epistemologia.
Em segundo lugar, a diversidade dos tipos de estudos efetuados na área espelhaa interdisciplinaridade do seu objeto.
Paradoxalmente, há que reconhecer nos estudos já publicados, o tratamento reucionista dado ao objeto turístico. Boa parte destas análises ora o enfoca sob a égide economicista como uma atividade apenas econômica, ora sob a ótica sistêmica, tratando-o como um sib-sistema. Tanto numa análise como na outra, o enfoque parte de uma premissa determinista, o que equivale a dizer que o turismo é analisado, na maioria dos trabalhos, sob os cânones da especialização de cada disciplina que o constitui - economia, antropologia, geografia, planejamento, administração, marketing, sociologia, comunicação, entre outras. Conseqüentemente, os estudos são fragmentados, desarticulados, unilaterais e com insufuciência metodológica, apresentando, salvo exceções pontuais, ausência de um espírito crítico passível de autonomia intelectual, que possibilite a construção de um campo teórico.
Em terceiro lugar, inexiste clareza epistemológica para a construção de teorias turísticas dentro da academia. A tradição cartesiana, predominante no saber cinetífico, fundamenta a análise na separação do todo em categorias, pressupondo que um campo de saber é suficiente para analisar e organizar as partes constituintes desse todo. A
interdisciplinaridade, fundamental à análise do turismo como fenômeno social, cultural, comunicacional, econômico e subjetivo, avança as fronteiras de uma única disciplina ou de um único campo do saber. Cabe à academia propor novas abordagens, a partir de uma concepção interdisciplinar. A interdisciplinaridade aponta um método investigativo fecundo sob o ponto de vista epistemológico, desde que superados os nichos particularistas existentes nas universidades, nos quais os clássicos campos do saber são criteriosamente delimitados.
Beni (1998) avança na construção do campo metodológico, quando propõe fundamentos a uma teoria dos sistemas aplicada ao turismo.
Relativizando as definições econômicas e técnicas, o pesquisador aponta as perspectivas holísticas como as mais apropriadas na apreensão do fenômeno turístico. Cita alguns elementos importantes no estudo, como a viagem e o deslocamento, a permanência fora do domicílio, temporalidade e o sujeito, o objeto do turismo. O elemento concreto do fenômeno traduz-se no equipamento receptivo e no fornecimento dos serviços para a satisfação das necessidades do turista, que denomina Empresa de Turismo. Ela é complexa e, em grande parte, responsável pela produção, preparação e distribuição dos bens e serviços turísticos. Pode-se conceituar bem turístico todos os elementos subjetivos e objetivos ao nosso dispor, dotados de apropriabilidade, passíveis de receber um valor econômico, ou seja, um preço.
Compreender a problemática do desenvolvimento crescente da atividade turística é relevante não só à medida que seus produtores, vendedores intermediários, consumidores continuam produzindo, vendendo e consumindo sem limites ou critérios, sem outro fim que seu próprio benefício e a satisfação egoísta do consumidor, mas pela persistência do problema, disfarçado nas concepções implícitas destes conceitos. Essa postura, emergente de uma cultura de mercado capitalista, desconhece a essência do fenômeno turístico, o qual exerce uma pressão crescente sobre a produção da subjetividade social, o ecossistema, o modo estético, a herança cultural, existentes nas localidades visitadas, gerando agenciamentos possíveis de ressignificação com a realidade, por meio da relação entre visitantes e visitados.
O comportamento mercadológico determinista, que utiliza o turismo como objeto de consumo no sistema econômico, desconsidera sua interdisciplinaridade, relações e códigos, diferentes daqueles produzidos e distribuídos em seres, segundo identidades, reconhecidas e reconhecíveis em grupos, previamente rotulados como nativo/visitante, dominado/dominador.
"Partir de férias" é um acontecimento dotado de particular significado para cada sujeito. Existe, hoje, uma abundância fantástica de apelos publicitários, para que o maior número de pessoas viajem. A maquinaria material das comunicações mais forte que os apelos de proximidade social entre diferentes sujeitos. Não viajar, para alguns, é similar a não possuir um carro ou uma bela residência. É algo que confere status, distinção. É um bem cultural. Turismo é processo humano, ultrapassa o entendimento como função de um sistema econômico. Como um processo singular, necessita de ressignificação às relações impositivas, aos códigos capitalísticos e aos valores, colocados como bens culturais.
Neste final de milênio, fazer turismo, tanto para quem o produz como por quem o consome, é uma forma de apropriação de poder. Consumir o outro, o diferente, o exótico, o distante, supostamente, gera experiências prazerosas. Experiências possibilitadoras da quebra de rotina, relativizando a massividade imposta ao consumo cotidiano. Faz-se necessário, entretanto, recusar todos os modos de manipulação e telecomando, para permitir novos modos de sensibilidade humana, de relação com o outro que coincidam aos desejos, ao gosto de viver, à vontade de conhecer o mundo, com a instauração de dispositivos capazes de desterritorializar, criando novas relações, sentidos e representações na busca da transversalidade entre os grupos humanos.
As categorias que expressam a sua estrutura, vão além do tempo, espaço ou consumo. O fenômeno também ocorre na dimensão comunicacional, econômica, tecnológica, ideológica, imaginária, prazerosa e subjetiva. A reconstrução de novos conceitos incitam a busca de novas categorias historicizadas, portanto, requerentes de uma abrangência de análise social, movida por condições objetivas e subjetivas.
A crise no estatuto do saber científico, causada pela era pós-moderna, paradoxalmente, abre um espaço analítico qualificado, para aprofundar as causas que gestaram um fazer-saber no turismo, senão um saber-fazer. Avançar sobre o saber-fazer direciona uma nova agenda para os estudos turísticos, em temas como a motivação, as escolhas, as necessidades, o prazer, as diferenças suportáveis, as trocas culturais, a aprendizagem, a desterritorialização, a homogeinização, a destruição ambiental, o impacto cultural e social, a comunicação intercultural, a hibridização cultural, o tempo atemporal, o espaço virtual, a construção de não-lugares, e permitem uma posição de revelância, juntamente, aos demais temas da pesquisa acadêmica contemporânea.
Antes de analisar a questão do saber turístico na atualidade, é preciso abandonar as análises cartesianas do pensamento científico, examinando suas possibilidades de superação. O objetivo da ciência, no cenário pós-moderno, não é mais a busca da verdade. O seu eixo passa a ser a busca do poder, o problema colocado sob a égide da constituição do discurso desse poder e sua legitimação. Mas há, também, um cenário em que o saber se mercantiliza e sua legitimação passa de um processo de prescrição das condições estabelecidas pela consistência interna e verificação experimental, para uma relação in put/out put, ou seja, a administração da prova, por créditos de cientificidade, por um jogo de linguagem no qual o que está em questão não é a verdade, mas o desempenho, a melhor performance. Cientistas, técnicos e tecnologias não estão mais a serviço da busca da verdade, mas do aumento do poder.
Os espaços clássicos de produção científica - universidades, faculdades e disciplinas - são demasiadamente especulativos, filosóficos, recheados de idealismo alemão no qual
(...) o saber encontra de início sua legitimidade em si mesmo, e é ele que pode dizer o que é estado e o que é sociedade (...) vindo a ser também o saber destes saberes, isto é, especulativo. Sob o nome de Vida, Espírito, é a si mesmo que nomeia (Lyotard, 1986: 62).
O saber sofre um processo de deslegitimação, pois se torna impossível submeter todos os discursos, produzidos pelo mercado, a um metadiscurso universal.
Examinado o estatuto atual do saber científico, constata-se que ele não é todo o saber. O saber narrativo possibilita a diferentes sujeitos sociais proferir "bons" enunciados denotativos, prescritivos e avaliativos, tornando-os competentes. Assim, o relato passa a ser uma forma excelente de saber, permitindo uma pluralidade de jogos de linguagem e a participação de diferentes grupos sociais, constituindo-se uma forma de vínculo social. Para os diferentes grupos sociais, ou para a humanidade, não basta conhecer, é preciso formular prescrições, tendo pretensão de seu uso, para garantir a justiça. Há uma relação entre meio e fim.
A pesquisa e o ensino, conseqüentemente, transformam-se, e nem todo conhecimento científico pode ser traduzível em "quantidade de informações". A pesquisa passa a ser um valor de troca, desvinculada do produtor e do consumidor. Encontra-se, então, destituída da plenitude da práticas discursivas, guiada apenas por suas boas intenções de produzir progresso, desenvolvimento, melhoria à humanidade, revestindo-se de intencionalidade humanista, generalizante. Legitimação propícia para o fazer-saber turístico vigente.
Do mesmo modo, Baudrillard (1992) critica o saber como o objeto a ser sacrificado a uma geração operacional das coisas. O capital faz produzir o trabalho, tornando-o uma operação. O consumo é uma operação modelizada, regulada, contrária à ação, a informação não é saber, é o fazer-saber.
Uma das hipóteses aqui analisada ressalta o saber turístico como um fazer-saber. Portanto, recheado de um discurso prescritivo. A passagem do fazer-saber para o saber-fazer, no campo turístico, impõe à academia o aprofundamento dos conhecimentos perpassados por seus currículos.
Quais as categorias, o eixo norteador, as temáticas expressas pelas concepções teóricas que sustentam o ato de ensinar? Quais os métodos de abordagem utilizados? É possível uma análise interdisciplinar? Quais as questões norteadas para romper o reduzível discurso publicitário, demasiadamente otimista, que avança e prolifera na prática turística? Qual o objetivo de ensinar nos meios acadêmicos: formar competências ou ideais?
Impossível separar o ato epistemológico do ato pedagógico. Enquanto proliferam no país cursos que vêem no turismo um segmento promissor do mercado de ensino, será cada vez maior no ensino e na pesquisa, nessa área, a forte presença de empresas, ligadas à prestação de serviços, mantendo centros próprios de formação profissional, com total confusão sobre os paradigmas utilizados. Marcam presença empresas internacionais de grande porte, no campo de transporte aéreo, hotelaria, entretenimento. Estas empresas vêm impondo temáticas aos currículos universitários, com a justificativa de estes estarem defasados em relação ao mercado de trabalho.
Instituições não comerciais como o Senac, Sebrae, federações industriais e comerciais, preocupadas com a qualificação do turismo, também agendam discussões e proposições, direcionadas à divulgação do que consideram as benesses do turismo. Conceitos como parques temáticos, captação de eventos, turismo ecológico, trade e outros passam a fazer parte do vocabulário das comunidades e dos grupos sociais. dentro desta óptica encontram-se os órgãos oficiais de turismo nacional, estaduais e municipais, quando produzem sistemáticas para a organização e conscientização turística das localidades. Identifica-se a desvinculação do produtor e do consumidor, tanto pela produção editorial dos documentos, quanto pelas informações trabalhadas.
A pragmática do fazer antecipou a pesquisa científica, numa lógica brutal de mercado, e o espírito científico, ocasionalmente posto na produção do conhecimento, implica a idéia de mera performance para o setor produtivo, na lógica de comercialização das informações como produto. Não se trata de defender a legitimação do saber turístico por metadiscursos filosóficos. Nem tampouco considerar as atuais informações da área como "saber científico", apenas por serem quase todas traduzíveis na linguagem informacional e codificadas em tabelas, portanto entendida como uma tecnologia intelectual mundial de alto valor de troca.
O desafio posto às universidades, faculdades e disciplinas é relativizar a força de mercadoria em que este saber se transformou. O acolhimento deste desafio pelos professores-pesquisadores não extinguirá a barbárie do conhecimento tecnocrático. Colocar a tarefa primordial em sempre sonhar com novas verdades é a resistência possível. Sonhar a partir de reflexões sobre questões não traduzíveis em simples informações operacionais, mas que avancem na perspectiva da ética, da soberania, da diversidade e identidade cultural, da democratização de todos os territórios, da liberdade de opções, do discenso, impõe novas linhas de pesquisa sobre o conhecimento.
Durante quase vinte anos, esta foi a compreensão generalizada do fenômeno. Na academia e no mercado produtivo, a teoria funcionalista, na sua vertente sistêmica, abraçou, maternalmente, o turismo, como um sub-sistema de um sistema maior: o econômico. As questões problematizadoras que se inserem neste trabalho são decorrentes deste mapeamento contextual. A negligência, por parte dos teóricos da vertente crítica, sobre a investigação teórica reflete-se na questão epistemológica. Ou seja, que epistemologia vem determinando o conhecimento do objeto turístico?
Por que, ainda hoje, persiste o pragmatismo na análise do fenômeno turístico? As categorias tempo, espaço e volume são atemporais, suficientes, acabadas para o desvelamento teórico necessário na construção de uma ciência turística?
O componente principal, aqui proposto, é o conhecimento turístico e sua produção. Portanto, é relevante a abordagem discursiva escolhida, a qual orientará a formulação teórica proposta e a explicitação conceitual, apontando seus limites históricos no que tange a compreensão de seu objeto de conhecimento.
Publicado por james stewart às november 23, 2004 09:33 EM